Na terceira pessoa
Fazia de conta que escrevia historias. E fazia de conta que as historias inventadas eram suas historias. Mas invariavelmente todas traziam um pouco de si. Contava sobre a insatisfação com seu corpo ora magro demais, ora gordo demais. Falava ainda sobre como as artes nobres da música, da literatura, o faziam distrair-se de si.
Mas suas histórias eram sobre sua inaptidão para ser humano. Sua inaptidão social que lhe impedia de se aproximar de qualquer mulher. Seu jeito neófito por se apaixonar por qualquer uma que lhe dá bola. Sobre como o futuro da sua infância e adolescência é adiado.
Mas um dia ele percebeu que nas suas historias poderia ser tudo, o mocinho, o vilão, e mesmo o saloon. Poderia satisfazer todas as suas vontades. Justificar sua irracionalidade de maneira racional fazendo parecer emocional o que é lógico. De maneira inevitável passou a querer determinar a extensão da felicidade ou infelicidade nos amores vividos e morridos.
Depois veio o tédio, essa dor invisível capaz de tornar distrações em vícios. Viciado no auto-engano, não soube criar amigos e amores duradouros. Morreu na solidão.